Hudson Rodrigues tem 37 anos, formado em design gráfico, nasceu em Americanópolis, um bairro pobre de São Paulo. Cresceu dentro de uma “casa de Bambas, onde se tocava samba com muito respeito!” como ele mesmo descreve.

Durante o processo, Hudson fala que procura se entrar em cada esquina, experimentando formas de capturas as imagens na rua. Essa personalidade tão característica da conexão do Hudson com São Paulo, principalmente do centro da cidade.

Apesar da família sempre tentar explicar com conversas leves o que nós, pessoas de cor, ganhamos como ônus ao nascer com a pele preta:

“Demorou um pouco, mas caiu a ficha: toda a diferença no tratamento era por causa da minha cor, sou preto.

Na cabeça de criança, aquilo era um absurdo, pois eu amava as diferenças das pessoas, não só da cor.

Depois de muitas tretas e aprendizados que a rua me trouxe, já estava claro a minha posição e a dos pretos que andavam comigo… e a de todos os pretos que encontrei pela vida. Nasci em um país racista, que camufla e só finge te aceitar.

Há dois anos comecei a me interessar pelo meu passado e pelas pessoas pretas, assim, meio que sem querer, querendo, comecei a fotografar os bambas – pretos da rua e da minha família. O processo já estava ao meu redor, fotografei o que me cercava, bastou ser sincero com as situações que vivencio e observo.

Comecei em 2015 fotografando alguns parentes, estudava alguma situações na minha cabeça poses e jeitos… algo que nos representasse, sem perder o fio do natural de ser e de sentir. Fotografei meu primo, um menino preto lindo cheio de vontade da vida, minha tia cansado sentada no sofá e assim começou uma pequena descoberta.

Algumas festas que eu frequentava começaram a ser um laboratório de observação.

Neste ensaio fotográfico, quero mostrar de forma direta as situações de alguns pretos que vivem em nosso país. O olhar da criança simples, mas de personalidade forte; o semblante da mulher negra cansada de uma vida de luta; os jovens cheios de garra mostrando suas posses, suas conquistas – que para muitos não é nada, mas quem nasceu marcado em uma terra de desigualdade sabe o que passou para ter o seu respeito.

As fotos foram feitas de forma direta, sempre estive muito inserido em todas as cenas, pois sou um deles. Retrato as marcas da vida, a posição firme apesar do cansaço de seus protagonistas – a briga para conquistar o mínimo cansa, mas ainda temos força. As máscaras que às vezes tentam esconder algumas cicatrizes internas.

Aqui no Brasil somos milhões que lidam com a realidade chamada preconceito. Porém, seguimos com a força e a sapiência que só cabem a quem sabe de cor e salteado quão dura pode ser a vida. Dizem que quem é rei não perde a majestade. O mesmo vale para nossas crianças e mulheres, verdadeiras rainhas pretas. Apesar de toda a dor, seguimos na corda bamba da vida sem perder o sorriso, afinal somos da corte das ruas de terra, vielas e cortiços. Somos bambas.”

 

Os Bambas estará exposto no Museu da Imagem e do Som, MIS, durante o mês de outubro.

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