Texto: Allan Yzumizawa
A baiana Andrea Mendes, é radicada em Campinas desde seus 18 anos de idade. A artista, curadora e educadora fala na sua entrevista com o crítico e curador Allan Yzumizawa, sobre sua produção poética, reflete também em como conseguir estratégias para tornar as instituições de arte mais acessíveis e em como a arte pode ser uma ferramenta educacional e política nos dias de hoje.

Allan Yzumizawa: O que fez despertar seu interesse nas artes visuais?
Andrea Mendes: O que me fez entrar nas Artes Visuais foi a arte-educação. Eu sou designer e trabalhei durante muito tempo dando aula nessa área tanto para jovens quanto para adultos. Sempre me via pensando em desenho, observação das formas, em análises do espaço para depois transferir isso para a área gráfica. Também sempre fui uma admiradora das artes visuais. Então, mais ou menos 6 anos atrás, decidi que queria largar a minha profissão (que era uma área totalmente diferente, área de industria) e investir num olhar mais aprofundado para a arte. Sempre frequentei museus, galerias, e passei a me interessar bem mais nesses últimos 6 anos ao conhecer artistas contemporâneas mulheres, como a Rosana Paulino. É muito recente, acho que ainda estou engatinhando nesse processo – tenho muito que aprender e desenvolver. Meu interesse se dá, ao pensar a arte como uma ferramenta de educação, com o tempo vou entendendo que ela está totalmente ligada à educação e à formação de repertório das pessoas. Eu vi que posso trabalhar como artista e como educadora. Antes eu enxergava a possibilidade da educação somente no educador…
AY: Você é de Campinas?
AM: Sou da Bahia. Me mudei pra Campinas com 18 anos.
AY: Esses museus e galerias que você frequentava era na Bahia ou em Campinas?
AM: Desde a Bahia. Eu venho da Chapada da Diamantina. É uma região que tem uma eferverscência cultural, que tem muitos artistas trabalhando com cultura popular e arte espontânea. Mas foi em Salvador que tive acesso a arte contemporânea, dentro de um circuito das galerias a qual eu circulava bastante também.
AY: Você acha que sua produção artística foi influenciada por essa sua vivência na Chapada, ou em Salvador?
AM: Posso ir além. As minhas referências, ou a minha poética atual está totalmente ligada com a minha história de vida. Posso dizer que a minha poética é sertaneja, catingueira – ela tem um território e sempre ligada a minha ancestralidade e minha vida pessoal. Quando eu começo a me entender como artista, o que desperta o meu interesse de fato é o sertão. Ele está comigo desde 2013 até hoje – interligado principalmente com os mandacarus – símbolo de resistência pra gente, lá do sertão. Ele sempre aparece nos meus trabalhos e é através dele que traduzo a ideia de resistência – não só a minha, mas de todos os sertanejos. Eu venho de uma família que é rural, de pessoas que vivem numa cultura não-urbana. Então, eles trazem bastante bagagem cultural do interior e isso acaba refletindo na minha produção. Eu transfiro muito da história da minha avó, em meus trabalhos. Hoje com 86 anos, mulher afro-indígena, já foi benzedeira, agricultora, sambadeira, mas atualmente vive uma vida sedentária na casa da minha mãe. Para mantê-la ativa comecei a desenvolver uma investigação sobre a nossa ancestralidade, através das boas conversas e cantorias das quais ela adora recordar. Isso já se desdobrou em um trabalho intitulado de “matriarca”, onde colhi histórias dela e as recoloquei de forma aleatória em um painel. Infelizmente o apagamento da nossa história é muito grande. A minha vó quase não se lembra das gerações anteriores, e isso se dá pelo fato de não encontrarmos documentos, pois nesse tempo, poucos negros dispunham dessas formas de registros.
AY: E essa reflexão não acaba sendo só sua, mas de toda uma população desse local. Acaba sendo uma arqueologia de um povo.
AM: É muito marcante. Não é só minha. Ela é repetida por muitas pessoas que não sabem onde estão suas origens.
AY: Como você acha que arte pode contar essas histórias?
AM: Esse trabalho que fiz com minha avó, foram três séries que tentei trazer referências dela sobre o matriarcado, a religiosidade e a espiritualidade. Ela é uma senhora que se entende sendo muito católica, porém também é benzedeira. Muito comum no nordeste do Brasil onde o sincretismo religioso é muito evidente. Apesar de católica, ao “benzer”, acaba invocando elementos da religião africana. Tendo isso em mente, decidi gravar vídeos dela contando sobre essa cultura do benzimento. Eu perguntava “E aí, a senhora é católica? Desde quando você vai na missa?” E ela falava que passava a ir na missa, quando ela se casou. “Mas quando a senhora se torna benzedeira?” Ela responde que tinha uma curandeira na roça que ensinou à sua mãe, que passou o ensinamento para ela, devido ao fato dela ter uma sensibilidade. Aí percebo que ela não menciona uma religião, mas que a espiritualidade dela está presente e se manifestando através de sua sensibilidade. A partir de então, faço esses registros fotográficos tanto benzendo, quanto rezando, para mostrar ao espectador como as expressões religiosas se fundem e também acabo colocando em evidência o porquê das pessoas esconderem o seu vínculo com a religião africana: pelo fato de isso ter sido demonizado no passado. Então, quando falo pra ela sobre o fato de “ser benzedeira” se relacionar com religiões de matrizes africanas, ela fica com um pé atrás. Ela tem medo. Não é algo que é consciente e sim subjetivas e nos meus trabalhos eu tento mostrar isso para as pessoas.
Outra série que criei foi sobre a relação dela com o tempo. Ela que sempre teve uma vida muito ativa na zona rural acordando cedo para cuidar dos afazeres domésticos e da roça, agora vive numa pequena casinha de fundo, anexado com a casa de minha mãe. Lá ela fica vendo o tempo passar através das missas na pequena TV.
Minha avó morava numa casa grande de chão batido, na zona rural do interior da Bahia. A série que propus, foi evidenciar o tempo através da poeira acumulada nas panelas de alumínio. Antigamente minha avó era obrigada a lavar as panelas todos os dias, mesmo não sendo usadas, pois ao varrer a casa de chão batido a poeira cobria as panelas, diferente de hoje, onde as panelas expostas na casa de alvenaria e de piso de cerâmica já não geram pó com tanta facilidade. Assim, o tempo de minha avó, já não passa tão rapidamente como era nos tempos em que vivia na roça. Foi um trabalho efêmero – por 15 dias observei e registrei o acúmulo de poeira na casa de alvenaria. Como demora para as poeiras se tornarem visíveis nas panelas, é possível refletir quanto o tempo tem sido longo pra ela vivendo dentro de uma pequena casa onde dorme, come, assiste a missa e o tempo não passa… o tempo de cuidar, de lavar, se transforma em um tempo ocioso. Minha avó que era extremamente ativa, que acordava, ia pra roça, cuidava dos netos, dos filhos, era parteira, rezadeira, hoje vive sem saber direito qual é o dia da semana.
AY: Que tempo é esse que a gente ganha na modernidade, né?
AM: Pois é, vivemos o tempo das coisas, um tempo que nos obriga a seguir relógios, onde tudo é pra ontem. Não consigo ter uma boa relação com tempo programado por máquinas. Então a arte é meu refúgio. Através dela crio meu tempo, provoco reflexões e busco equilibrar o tempo das coisas com o tempo da vida. A vida precisa ser apreciada e sentida, assim como a arte. Ainda não sei como fazer para manter o equilíbrio.
AY: Ultimamente ando pensando muito na riqueza e na complexidade da identidade brasileira. Eu fui num seminário no Goethe Institut sobre sul global, onde a temática foi a arte indígena brasileira e cada participante pode compartilhar na sua fala um pouco da sua cultura, das suas produções, problemas e reflexões. Depois, outro dia encontrei com um grupo de haitianos em São Paulo, e no dia seguinte, estava me encontrando com um grupo de taiwaneses radicados aqui no Brasil. É muito louco a quantidade de culturas e complexidades de referências culturais convivendo num determinado espaço “brasil”, tentando se misturar, tentando se manter – e como essas manifestações são completamente invisibilizadas não só hoje mas no passado também. Essa cultura das parteiras, das benzedeiras, toda essa complexidade cultural, linguística, de medicina alternativa, por exemplo, acabam ficando à margem e distante da nossa noção quanto identidade. Acho que a arte pode ser uma ferramenta que possa investigar um pouco disso. A identidade e cultura não é só uma matéria da antropologia e da história. Com isso, já puxo a pergunta: entendendo a arte como essa ferramenta educacional/antropológica – como torná-la mais potente investindo na sua acessibilidade? Como dessacralizar as instituições de arte?
AM: Eu acho que nós temos grandes artistas pesquisando essa nossa relação cultural popular, mas elas não são acessíveis para grande parte da população brasileira. Não é fácil, eu posso dizer que além de trabalhar como artista e educadora, quis ter a ousadia de entrar nessa área de curadoria, tentando justamente investir nisso: em mostrar a arte e a produção negra. Logo percebi o quanto é difícil deixar esses espaços acessíveis às pessoas. Eu particularmente, enxergo que a maior dificuldade tá na própria abertura dos espaços e deles enxergarem a necessidade de terem artistas, pesquisadoras e pesquisadores negros, indígenas que estão apresentando diferentes possibilidades artísticas e culturais de se manifestar e de enxergar o mundo – diferente de tudo que foi colocado e inserido até agora. Então é muito complicado… como artista e como curadora. Por exemplo no Dragão do Mar, lá no Ceará, existe um Museu do Vaqueiro, que é um espaço aberto localizado no centro e qualquer um pode entrar – mas ele fica dentro de um espaço expositivo no subsolo. Para saber que ele existe, tem que se informar antes, falar na recepção… é um espaço que era pra ser democrático, você não paga nada pra entrar mas você não tem informações sobre esse espaço. É um acervo permanente, riquíssimo… mas quantas pessoas acessam? Quantos turistas entram em contato com essa cultura sertaneja? É difícil…
AY: Como você enxerga a prática da curadoria? Você enxerga que sua prática curatorial tem relação com sua prática artística?
AM: A curadoria é uma possibilidade da gente conseguir trabalhar com o que nos interessa – quando vai além do capital – entro nesse universo entendendo que tenho a possibilidade de dar visibilidade para artistas negros e para cultura que não estão sendo notadas. Entendo que é um papel muito importante. Enxergo também a curadoria como pesquisa, diálogo com artistas, lugares… como eu disse no início, sou uma artista, curadora e muito educadora… quero pensar numa curadoria que dialogue com esse público, que possam entrar nesses locais, se reconheçam no que está sendo apresentado: pensar em cultura periférica, em arte negra, em manifestações culturais diversas… pra mim é de extrema importância. No trabalho que fiz sobre a memória histórica do hip-hop, o que foi mais precioso, foram as ações educativas, pois o público conseguiu de fato interagir com aquele assunto. A partir do momento em que as pessoas se sentem representadas, dialogam com essa produção, a gente mantém o espaço do museu vivo. Pra mim esse é o papel da curadoria. O museu morto não me interessa – Ana Mae fala muito disso…
Acho que tá ligado com minha produção. Quero que as pessoas tenham alguma reflexão ao sair do espaço expositivo. Não sei se baguncei ou fui clara…
AY: Esclarecedora! Principalmente no Brasil, a produção que temos – na maioria das nossas instituições de arte – não representa e não dialoga com a maioria da população brasileira, nada que tá lá nos pertence. Então acho que as pessoas visitam e dizem “Isso não me interessa” ou “isso não faz sentido pra mim”… e acho que a arte contemporânea consegue (pode) por em pauta discussões que são pertinentes para o nosso tempo, de certa pessoas. E como você disse, curadoria é colocar essas discussões… então talvez aí possa ser um mecanismo de democratização: colocando questões pertinentes de diálogos com a população nos espaços expositivos.
AM: Eu fiz um trabalho de conclusão de curso, que foi justamente isso. O título do meu TCC foi “Se o museu não vai à quebrada, a quebrada ocupa o museu”. Percebi que quando entendemos quem é o nosso público, e produzimos para eles, você dá a possibilidade que ele ocupe esse lugar. A quebrada não enxerga o museu como um lugar de pertencimento… qual que é o dever do curador? Ele vai pensar numa expografia, numa exposição que possa fazer com que esse público se sinta pertencido. Isso não quer dizer que eles não possam ir ver uma exposição do Toulouse Lautrec, por exemplo, tem que acessar todo tipo de arte… mas para isso precisamos primeiro, fazer com que eles se sintam pertencidos à isso.
AY: Já que estamos tocando no assunto, aproveito para elogiar a exposição que você fez, a “Pretas incorporações” realizada na Estação Cultura de Campinas. Foi algo que me deixou surpreso principalmente por dois pontos: a quantidade de mulheres negras que produzem arte contemporânea de alta qualidade em Campinas e a quantidade do público que visitou a exposição. Eu queria que você comentasse um pouco sobre essa exposição.
AM: Pra mim foi uma exposição dolorosa. Foi uma exposição feita sem nenhum tipo de recurso. Não tive grana nenhuma. Comecei a trabalhar nela em Junho, fazendo um chamamento para artistas mulheres negras. A Fabiana Ribeiro, da Estação Cultura – que tá tomando conta do espaço – me chamou, e disse assim: Andrea, queria que você fizesse algo que falasse sobre as negritudes, relacionando com a exposição que eu havia feito no MIS chamada “Pretitudes”.
Propus então um exposição de artistas negras, pois sabia que havia uma quantidade de mulheres negras entrando na universidade. A Fabiana curtiu muito a ideia, então resolvi abrir um chamamento virtual. Foram 17 mulheres negras interessadas, 15 daqui da região de Campinas, uma do Paraná e uma de Minas que é a Priscila Resende. Aquele grande número de mulheres negras interessadas, indicou pra mim que eu estava no caminho certo. Mas eu entro num problema: tinha que ver os trabalhos delas e tentar trazê-las para a exposição, aí que entra o triste Allan… elas diziam: “Ah… mas eu nunca expus… meu trabalho não é tão bonito assim… vou te dar só duas obras porque as outras estão feias…” Isso foi muito pesado pra mim. Tive duas ou três meninas empoderadíssimas, sabendo da qualidade do seu trabalho artístico, mas a maioria acreditavam que o processo de criação delas não era interessante para ser compartilhado. Então o meu maior trabalho foi mostrar para elas que o trabalho era sim interessante, e que se permanecesse guardado, perderia toda sua força e seu potencial. Então para a minha felicidade as 12 toparam, e das outras regiões não conseguiram vir devido a falta de apoio financeiro. Eu tenho o meu público alvo. Acho que hoje, depois de quatro exposições que trabalhei, as pessoas sabem que meu trabalho tem a ver com elas. Quando coloco o título da exposição de “Pretas inCorporações”, falo de cor, corpo e ações – como você pôde notar 70% à 80% do público visitante na abertura eram negros, querendo se enxergar naqueles trabalhos. Foi lindo de ver que isso aconteceu. Eu acho que esse é o trabalho do curador, tem que ter a noção do seu público, das suas ações, dos seus artistas. O meu trabalho, é um trabalho de militância e de luta – nesse quesito, acho que consegui atingir.
AY: Quais são seus próximos projetos?
AM: Para o segundo semestre, trago um projeto que estou concebendo desde meados do ano passado. Uma exposição de arte africana com peças do acervo do Instituto Babá Toloji. O instituto foi fundado e permanece em Campinas desde a década de 70 e conta com um acervo riquíssimo com milhares de peças africanas. Porém é pouco acessado e reconhecido dentro da cidade. A minha proposta com a exposição é difundir a arte africana, mas também dar visibilidade a esse espaço incrível na nossa região de Campinas que não é devidamente reconhecido pela população. Eu gostaria de transformar um pouco essa realidade.
AY: E pra finalizar, qual é o seu projeto dos sonhos?
AM: Eu tenho sonhos doidos! Tenho muita vontade de ter um atelier aberto (público) como se fosse a Estação Cultura de Campinas, onde qualquer um poderia chegar e acessar as exposições, produzir , refletir essas produções, entrar em contato com artistas para se aproximar com o universo da arte. É uma utopia…
AY: Não é não. É possível, e isso seria incrível!

Acompanhe o trabalho do Allan.