Texto: Allan Yzumizawa
Ilustrações: Mariana Rodrigues

 

No último texto, expus brevemente a configuração do sistema e da valorização da obra de arte, indicando historicamente que essa “mercadoria” seria um produto de status e poder para os aristocráticos. Entretanto, durante o surgimento de uma sociedade moderna (por meados do século XIX), o poder aristocrático transforma-se para a nova classe burguesa, que também passam a consumir essas obras como um capital cultural . Também mencionei que alguns artistas optam por entrar dentro do sistema como uma estratégia política. Mas como? Isso é efetivo? Vamos aos fatos:

Recentemente,The Carters, dupla formada por Jay-Z e Beyoncé, soltaram nas redes o novo clipe Apeshit, o qual chamou a atenção de milhares de pessoas pelas cenas gravadas dentro de um dos museus mais respeitados do mundo, o Louvre. O clipe se inicia com os dois artistas em frente ao icônico quadro da Mona Lisa de Leonardo Da Vinci, e se desenrola com cenas de vários corpos negros ocupando – de diversas formas – o espaço do museu.

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Num primeiro momento, podemos notar um certo empoderamento da cultura negra norte-americana, que a partir desse momento é colocada em primeiro plano ao mostrar sua música, sua dança, seu corte de cabelo, etc. Entretanto há algo de extrema importância ressaltar, que é a negociação – termo empregado pelo pesquisador pós-colonial Homi Bhabha – que esse videoclipe realiza ao ser gravado dentro do museu. Na verdade, esse espaço se apresenta como um espaço simbólico de poder cultural, como evidenciamos no texto passado, pois um dos maiores museus do mundo que é o sinônimo da “alta” cultura, possui um acervo predominantemente de artistas brancos, e quando constrói um acervo de arte egípcia, ou de outra cultura, têm como base uma apropriação cultural, o Outro “selvagem”.

Apeshit já se configura como uma obra de arte, já se configura como uma infiltração no sistema: alugar o Louvre pra gravar o clipe, colocar, evidenciar a cultura negra e mostrar tudo isso para bilhões de pessoas no mundo. Entretanto ficamos com algumas perguntas: a cultura negra está de fato no museu? Quantas obras de artistas negro(a)s existem nessa instituição? Como mudar esse acervo? Como torná-lo menos homogêneo, menos branco e ampliá-lo para iniciar uma discussão cultural, uma negociação para que o torne mais representativo? O clipe está se proliferando nas redes, as brechas já foram abertas, mas o Louvre ainda é branco…

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Portanto, ao falar de arte, dinheiro e poder, é preciso ter muita consciência de todo o sistema e do que está em jogo. Quanto vale a sua arte? Como ocupar esses espaços simbólicos? The Carters abriram uma brecha que deve ser aproveitada; seria um momento para rediscutir acervos, inserir outras perspectivas culturais dentro das instituições de arte – pois voltando ao ponto inicial, esses são um dos espaços de poder da sociedade ocidental.

Durante este ano, o MASP tem uma programação inteira sobre questões afro-brasileiras e da diáspora negra – a partir do mês de Julho, a exposição Histórias Afro Atlânticas ocupam tanto o MASP quanto o Instituto Tomie Ohtake. O Itaú Cultural, depois de um escândalo em financiar uma peça com cenas de black-face, começou a rever suas diretrizes culturais criando os seminários “Diálogos Ausêntes” para discutir o protagonismo dxs negrxs na arte além de diversificar o seu acervo adquirindo obras de artistas não-brancos para que se possa ter uma coleção mais representativa à população.

Se arte é poder – cultural e econômico – seria esse, também, um espaço de disputa política. A cultura é uma negociação, portanto resta saber quem é que está ganhando.

 

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