Por: Allan Yzumizawa
Fotografias: Vine Ferreira

Os pensadores Deleuze e Guattari fizeram uma afirmação de que “com o capitalismo, iremos até a Lua juntos, que ainda não vimos nada do que ele é capaz…” Esse texto escrito 1972 não pôde ser mais premonitório; em tempos em que a NASA foi ultrapassada por um empresário com a Space X (empresa de Elon Musk), que já marcou a primeira leva de pessoas à Marte em 2024, estamos presenciando tudo que o capitalismo pode fazer. Dinheiro é poder…

Mas há algo no passado que sempre evidenciou esse poder, e ao passar do tempo, foi se estabelecendo cada vez mais, algo mais conhecido como “arte”.

“arte” com “a” minusculo, pois esse texto não pretende discutir do que se trata esse nome tão falado, mas enxergando-o como um sistema cultural – talvez de poder cultural.

Vamos lá: quando tudo isso começou?

Juliana Araújo e Ambiente de Empretecimento da Arte Nacional a Favor da Descolonização Cultural em ação na 14a. SP-Arte

Há muito tempo atrás, quando no mundo ocidental existia um poder aristocrático, ou seja, o poder concentrado nas famílias reais (ou melhor, na figura patriarcal “rei”) e nas igrejas, a arte era utilizada para ressaltar esses valores: nas pinturas de figuras religiosas e nos retratos das pessoas importantes nessa sociedade. Mas tem um período, mais ou menos quando essa sociedade ocidental estava em transição ao modernismo, temos uma mudança na estrutura social e o surgimento da então classe burguesa. O poder deixa de estar no “sangue real” das pessoas e passa a se justificar no dinheiro; o poder agora se compra, então o burguês conseguia ter tudo o que uma família real tinha, pois ele juntava dinheiro e comprava – nisso, viu a importância na arte. Se um rei tem um retrato pintado por “tal” artista, eu também posso. Se quiser, também crio um museu. Portanto, na nossa sociedade ocidental, ter um quadro de um artista na parede é questão de status; de status cultural. Existem ricos, que mesmo com dinheiro, não conseguem se inserir pois não possuem “cultura”, e só após comprar obras de arte, conseguem entrar em contato com pessoas como banqueiros, presidentes de companhias, etc. Pois agora, elas são aceitas. Além disso, arte sempre foi um bom investimento, pois valoriza bastante e cabe na parede da casa; diferentemente de casas e carros. 

Mas quem valoriza essas obras? Quanto custa uma obra de arte?

Juliana Araújo na 14a. SP-Arte

Bom, depende… Geralmente a coisa é simples. Uma pintura à óleo, é mais cara do que uma fotografia, pois fotografia você pode imprimir várias, e a pintura é única. Dentro dessa lógica, as pessoas calculam um preço por metro quadrado, ou seja, se for uma pintura pequena um preço menor, se for uma pintura grande, um preço proporcionalmente maior. Entretanto, existem outros valores ditos “subjetivos” que também alteram o preço das obras. Dentre elas, o currículo do artista, em quais coleções esse artista está, se aparece em mídia, se ganhou algum prêmio, etc. E todos esses fatores, são atribuídos por instituições como Academia (universidade, textos críticos), curadores, museus, galerias de arte, colecionadores… Portanto, existe um sistema que atribui o que vale e quanto vale…

Ambiente de Empretecimento da Arte Nacional a Favor da Descolonização Cultural em ação na 14a. SP-Arte // MATHEUSA PRESENTE

Puts… Que coisa horrível! Como escapar disso tudo?

Bom, não é novidade que o espaço da arte seja um espaço criativo, inventivo e que produza/valorize a diferença. Desde há muito tempo atrás, por exemplo com Duchamp, ele já tentou subverter esse sistema ao expor um mictório (A fonte, 1917). Podemos pegar o exemplo das performances que, pelo fato de não serem materiais, ficam mais difíceis de vender. Mas também é verdade que o mercado conseguiu (com dificuldade ainda) cooptar essas manifestações artísticas.

Então não há escapatória?

Ambiente de Empretecimento da Arte Nacional a Favor da Descolonização Cultural em ação na 14a. SP-Arte

Escapatória há, só não há regras. Existe muita gente fazendo seu “corre” fora desse circuito, conseguindo ganhar uma grana pra pagar as contas. Existem outras pessoas que preferem ter um emprego fixo e dentro das brechas temporais (folga, almoço, ou madrugada), separam algumas horas pra poder produzir o que gosta; e outras que já querem entrar nesse sistema para poder modificá-lo a partir de dentro… Nesse caso, cito uma rara pesquisadora do mercado da arte, Chin-Tao Wu:

“Parece-me que é uma consequência inevitável do poder do capitalismo multinacional que, na entrada do terceiro milênio, as multinacionais ocidentais usem a arte como arma para proteger seus interesses no papel de colonizadores econômicos no estrangeiro. Esta é uma pequena contribuição que o Outro imaginário tem condições de dar ao que, apesar da progressiva globalização do mundo da arte, continua sendo predominantemente um debate branco eurocêntrico”

Ambiente de Empretecimento da Arte Nacional a Favor da Descolonização Cultural em ação na 14a. SP-Arte

Portanto, é importante saber seus limites éticos, ter consciência do que está em jogo dentro de todo esse sistema. Mas uma coisa eu defendo: nunca deixe de valorizar a sua arte – independente de dinheiro ou reconhecimento – toda produção exigiu uma vivência, estudo, experiência, dedicação e tempo para ser criado, e isso faz com que ela seja única, especial – valorize-a.

A segunda parte desse texto sai em breve aqui na revista.

Recomendações bilbiográficas:

Arte e Dinheiro – Katy Siegel e Paul Mattick

Privatização da cultura: a intervenção corporativa nas artes desde os anos 80 – Chin-Tao Wu

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