Não consigo ver Sorocaba apenas como a cidade típica do interior, talvez por eu ter nascido lá, mas principalmente, o potencial que acredito sempre ter existido. Como toda cidade do interior – mais conservadora do que os grandes centros – Sorocaba é maquiada pelo paisagismo do governo de Vitor Lippi, e um urbanismo que mantém a periferia nas margens. O atual prefeito, Crespo, tem procurado terceirizar a Policlínica – que sofreu um desabamento em sua estrutura recentemente -, inventa cargos para profissionais sem formação ou conhecimento nas cadeiras que assumem, entre outras coisas que só favorecem a ele. Não surpreende o apoio ao presidente mais boçal que já tivemos durante nossa curta história democrática.

Voltando ao potencial, ele pode ter um dedinho do pé na cena cultural alternativa branca, que critica a falta de apoio da cidade à cultura, mas não questiona se a cultura que produzem chega a essa população que, não por acaso, está fora do que eles compreendem como cidade.

Patrick Freitas faz parte da nova onda que enxerga as coisas além da vizinhança. Aos 18 anos, é trancista e desfilou pelo Brechó Replay na 44a. Casa de Criadores. Há poucos meses, deu início ao coletivo Nós Temos Um Sonho e planeja transbordar para a capital ainda este ano.

 

 

 

SEMEDO: O que você faz?

Patrick Freitas: Atualmente trabalho em um coletivo com um amigo, João Vitor. Estamos buscando abranger a juventude com o mundo da moda, audiovisual, para os jovens aqui em Sorocaba se sentirem mais acolhidos. Aqui no interior somos muito julgados.

SMD: Como começou o Nós Temos Um Sonho?

PF: Estamos funcionando desde setembro de 2018. Começamos jogando um link no Instagram, aí eles foram entrando no grupo do whatsapp e chegamos em mais ou menos 100 pessoas. No rolê colaram umas 60 pessoas. Eles estavam muito tímidos, cada um em um canto. Começamos a conversar, o pessoal foi se sentando, como se fosse escola. Falamos sobre o projeto, outras coisas que eles precisavam saber. Foi durante aquela fita com os nazistas aqui em Sorocaba, você ficou sabendo?

SMD: Ah, na época dos neonazis, sei.

PF: A galera precisava estar mais informada, a gente foi passando essa visão. Rolaram as fotos no Fórum Velho, na Catedral. E foi isso.

SMD: Bafo

PF: Arrumamos uma fotógrafa que vai ficar com a gente, registrando o rolê.

 

 

SMD: E de onde veio sua relação com o cabelo?

PF: Desde que eu sou pequeno. Minha família toda trança o cabelo, assim, minhas tias usam aplique, desde que eu nasci. Tinha uma mulher, Edelise, ela vinha em casa e trançava o cabelo da minha família inteira em dois dias.

SMD: Caralho!

PF: Eu tenho oito tias, uns 12 primos…

SMD: Você é filho único?

Não, tenho uma irmã. Então, essa mulher vinha de São Paulo e eu ficava só observando, tá ligado? Aí com uns oito, nove anos eu comecei a mexer nas bonecas da minha irmã. Esperava todo mundo dormir. Aí as vezes eu apagava, e quando acordava, os cabelos das bonecas todos trançados. Aí eu desfazia tudo para minha irmã não perceber. Com uns 10, 11 anos, comecei a fazer mesmo. Pegava sobra de cabelo da minha irmã, da minha mãe, amarrava nos dedos dos pés e comecei a pegar as manhas. Com 14 eu passei a fazer das minhas primas, mexia nas tranças delas, fazia uns penteados que eu achava bafo e tal. Aí com 16 minha amiga deixou eu fazer o cabelo dela. A minha mãe não me apoiou. Até então eu namorava uma garota, ela pensou que isso ia ajudar a me assumir, ela já sabia, eu também, enfim. Eu levei a noite inteira para fazer 20 tranças. A noite inteira. Das 10h da noite às 10h da manhã. Dormi às 5h, acordei 9h30 e continuei fazendo. Ficou meio pá, o cabelo dela. Minha mãe não queria que eu fosse dormir na casa dela, falei que ia só dormir lá. Ela não me apoiou mesmo por fazer o cabelo dela. Comecei a fazer nas minhas primas, elas viram que eu estava começando, cobrando barato ou nem cobrava. Quando peguei manha mesmo, com 16, 17 anos, entrei em salões (de cabelo), entrei em um, entrei em outro.

SMD: Em Sorocaba mesmo?

PF: Aham. Nesse outro que entrei, aprendi muita coisa, com um dos melhores caras da cidade. Aprendi muita coisa com ele, mas saí porque não o suportava, tinham umas coisas esquisitas no salão dele. Passei a trabalhar sozinho, tipo, real. Não trabalhava para ninguém, cobrava barato, só para comprar minhas coisas, tipo roupa. Minha família parou de chamar ela [a Edelise] porque viram que eu estava começando a crescer e agora faço da minha família inteira. Eu ganho dinheiro, ajudo em casa. Isso me deu uma vivência muito boa, mexer com cabelo.

 

 

 

 

SMD: Como foi esse lance com a sua família, de você se assumir? Sua mãe já sabia, né?

PF: Desde criança eu danço todos os estilos. Minha família é muito do pagode, axé… Minha família é preta. Ela me pegava dançando com as minhas primas, me batia. Me levava para os fundos, me batia. Eu dormia chorando, por dançar num rolê de família. Sempre me forcei a ficar com meninas, meus primos ficavam na minha cabeça, mas eu sempre soube que não era pra mim. Aos 16 me descobrindo. Um dia minha mãe foi na porta da minha escola, 8h, na primeira aula. Me mandou pegar minhas coisas. Tinham falado alguma coisa para ela. Não tinha acontecido nada, eu estava seguro. Ela começou a inventar um monte de coisa contra mim, jogando verde. Eu não falei nada, implorei para voltar para escola. Ela não deixou até eu dar a resposta que ela queria. Eu voltei para escola chorando, meus amigos me acolheram. Aí voltei para casa e contei pra ela. Foi em agosto de 2017.

 

 

SMD: Como você vê a cena cultural na cidade?

Aqui tem muita gente boa, em todos os aspectos e estilos. Muitos ajudaram a me descobrir, muitos nem me conhecem mas eu os conheço, na música, na arte… Curto muito a Ananda Jacques, o Jeff, que é meu amigo, o namorado dele, Serafim e a galera da minha religião, do Candomblé.

SMD: O que você planeja fazer esse ano?

PF: Esse ano pretendo focar na moda, seja com cabelo ou modelando na passarela. Não gosto tanto de foto ou comercial que vejo aqui na cidade, mas lá em São Paulo vou expandir tudo que eu quero. E seguir trançando o cabelo das minhas amigas, ser reconhecido por isso, pela minha força de vontade e superação. Tive que parar tudo e começar do zero, desde roupa, cabelo, aceitar minha cor, tudo.

 

@freitasprodigy

@coletivo_ntus

Fotografias e entrevista: Vine Ferreira

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