Texto: Vine

No último domingo, de manhã, acordei com uma mensagem da Dai: um link pra um dos clipes mais falados depois de Formation, da Beyoncé. Donald Glover, que vem aumentando sua notoriedade como diretor, ator, roteirista, produtor, humorista, lançou sua última obra audiovisual, dirigida por Hiro Murai, que já dividiu outros trabalhos com Glover, como Sweatpants e Atlanta, série premiada disponível na Netflix.

Resumi e atualizei algumas informações e análises sobre o clipe, onde Gambino se coloca não apenas como crítico, mas parte ativa da estrutura racista norte-americana.

O cara com o violão é na verdade o músico Calvin The Second, e não o pai de Trayvon Martin, como alguns afirmaram. Trayvon foi assassinado aos 17 anos por George Zimmerman no Twin Leaks, condomínio onde morava a noiva de seu pai.

Do blues vieram praticamente todos os gêneros musicais norte-americanos, junto ao gospel e outras influências. Alguns tem sugerido que isso simboliza esses músicos com este primeiro personagem, que toca violão e em seguida aparece sem identidade e sem o instrumento, prestes a levar um tiro na cabeça.

Muitos leram essa informação como as ações da indústria, que insiste em apagar a imagem do negro de suas criações, trocando por uma imagem estereotipada, como um papel ser cumprido na sociedade.

Segundo a historiadora Suzane Jardim, Jim Crow foi um personagem criado por Thomas D. Rice, novaiorquino nascido no início do século XIX, pioneiro do blackface e dos shows de ministréis e foi a este personagem que muitos ligaram a pose de Gambino. O personagem era uma figura caricata: o comediante fazia blackface enquanto encenava um personagem burro, maltrapilho que andava de um jeito bobo. Além de servir de referencia para outros personagens racistas, como o corvo do filme Dumbo, da Disney, o personagem deu nome para as leis de segregação racial no país, que valeram de 1876 a 1965.

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Logo após atirar, Gambino entrega o revólver para um garoto que recebe a arma com o maior cuidado sobre um pano vermelho e no fundo o personagem alvejado é arrastado por outras crianças. Os EUA registra um tiroteio com vítimas por dia, segundo a organização Gun Violence.

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Os passinhos são uma mistura de trap, rap e Gwara Gwara, dança sul-africana. Algumas pessoas relacionaram os movimentos e o uniforme ao massacre de Soweto, quando cerca de 500 manifestantes foram mortos ao reivindicar uma educação melhor para os negros, que recebiam investimento 15 vezes menor do governo em comparação aos estudantes brancos. Isso aconteceu em 1975, em pleno Apartheid.

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Depois dessa baguncinha, Gambino entra por uma porta dançando ao som de um coral cantando “black man, black man. Get your money” (Homem negro, homem negro. Conquiste seu dinheiro), até massacrar o coral. Aqui, ele pode te lembrar do massacre de Charleston, quando Dylann Roof, um supremacista branco adentra uma igreja e mata 9 pessoas, no estado da Carolina do Sul. E, de novo, essa é a América que cuida das armas, mas não das pessoas, quando o coral permanece largado no chão e Gambino entrega a arma ao cara com pano vermelho.

this is americaDo segundo andar do estacionamento, pula um homem branco. Nos EUA, a taxa de suicídio cresceu em 10% após o suicídio de Robin Williams, em 2014.

O rapper não poupa nem a juventude negra, entorpecida pelas danças da moda, excessiva preocupação com a aparência, viciadas em celular. 

No fundo aparece um cavalo branco montado por uma pessoa de preto. Isso pode simbolizar a morte seguida de Hades (carro da polícia) – deus do mundo inferior e dos mortos – segundo Apocalipse 6:8 da bíblia, apesar de que na versão em português do livro o cavalo é amarelo.

Logo depois dessa cena, o único momento de calma do clipe: quando Gambino acende um baseado e tudo para, diminuindo a tensão da obra.

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Essa princesa no canto é a SZA.

Você deve ter visto que aquele músico que aparece no começo do clipe está de volta quando Gambino está subindo no carro. O pessoal do twitter estava dizendo que isso pode simbolizar a resiliência [fig. capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças] da cultura negra.

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Os carros dos anos 80 trazem um ar quase atemporal a todo o clipe, mostrando que algumas coisas só foram atualizadas, mas as estruturas são as mesmas.

Uma breve observação sobre a estética: as cores começam claras e frias, e vão esquentando ao longo do clipe, acompanhando os sentimentos do rapper. Ele tem as sombras mais escuras nos momentos mais pesados, a atmosfera se torna mais neutra na hora em que acende o baseado, depois fica mais leve e quente até retornar a frieza, mas com sombras muito mais densas no final do videoclipe.

O vídeo termina com Gambino correndo dos brancos. Pesadelo recorrente no pessoal aqui da revista e possível referência ao filme Corra!

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Teve gente que relacionou a calça que de Donald aos Estados Confederados que, durante a Guerra Civil nos EUA, queriam independência para impedir a abolição da escravatura. A bandeira dos Confederados também aparece numa foto de Rylan Doof.

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Outras referências não citadas:

[https://www.facebook.com/leoocalisto/posts/1394277144005653] [https://twitter.com/depretas]

 

 

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