E depois que entendi que a vida começou, o que acontece?

Cantar por mais de um ano as músicas de  Alice No País Que Mais Mata Travestis  foi muito difícil. Eu entreguei tudo que carreguei dentro de mim durante 20 anos em 3 músicas, 20 anos em 20 minutos e 13 segundos. Eu nunca havia gritado, clamado e lamentado da maneira que fiz em meu último trabalho. Foram temporadas de jejum e oração. E graças a Deyse, a mim, #EquipeGuél e todas as pessoas loucas que admiram meu trabalho, rodei São Paulo e várias cidades do interior levando a palavra da Deusa travesti. Eu fiz de blocos de carnaval um púlpito, profetizei vida para as minhas nos lugares onde um dia não fomos bem vindas. Converti corpos para o traviarcado com as profetas mais astutas e ungidas de São Paulo. Desmenti o que imaginavam sobre sensibilidade e luta. Foi um processo doloroso, eu peguei pesado, pesado demais.

Me vesti de noiva, amarrei meu rosto, mostrei meu corpo, me amassei inteira, colei cílios, unhas, máscaras. Passei até fita, eu poli e selei demais.

Não consegui andar de pernas de pau, mas aprendi a esconder o pau. Eu aquendei demais, me escondi demais. Tive insônia, ansiedade e crises até entender que meu corpo não para, a tempestade não passa.

Me recolhi e decidi cuidar de mim, da minha saúde mental, procurar meus ancestrais, me imergir novamente em meu templo. Me propus a experimentar novas formas e facetas minhas, construir a minha identidade mutável em cima daquilo que sinto necessidade na minha vida, na minha arte.

Transicionei minha arte mais uma vez.

Sinto que meu templo está em construção, pra se tornar mais forte, consistente, para acomodar mais corpas mais existências e resistência.

 

Alice Guél

 

 

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